Há Vida, há Festa – Carta à Diocese de Beja por ocasião dos 250 anos da Restauração da Diocese de Beja

Amados irmãos e irmãs: 

Louvai o Senhor porque é bom cantar, é agradável e justo celebrar o seu louvor (Sl 147A, 1).

 

Festejar os 250 anos da diocese

  1. Venho convocar-vos para a celebração dos 250 anos da restauração da nossa diocese de Beja. São antiquíssimas as suas raízes e há testemunhos de que, mesmo no tempo de domínio muçulmano, a fé cristã, embora muito condicionada, permaneceu nestas paragens. A restauração da diocese de Beja em finais do século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa e num momento de difícil relacionamento entre o poder civil e a Igreja, separando-a da arquidiocese de Évora, não foi um processo fácil. Eram os tempos da perseguição dos jesuítas e da supressão da Companhia de Jesus (1773). Em D. Frei Manuel do Cenáculo, homem culto, teve a renovada diocese o seu primeiro bispo, cheio de zelo pelo bem das suas ovelhas. O século XIX, que viu o triunfo dos liberais e a extinção das Ordens Religiosas, foi um tempo em que esta diocese, tantas vezes mal pastoreada, esteve a ponto de ser suprimida de novo. Graças a Deus e à ação decidida de muitos homens, entre os quais avulta o Cónego Boavida, tal não aconteceu. Com o Sr. D. José do Patrocínio Dias, e com os bispos que lhe sucederam (D. Manuel dos Santos Rocha, D. Manuel Franco Falcão e D. António Vitalino Dantas, atualmente bispo emérito), a diocese de Beja foi consolidada. Chegamos assim aos 250 anos da sua restauração. É a vida de um quarto de milénio que, com muita alegria, vos convido a festejar.

Podemos dizer, com toda a verdade, que esta igreja diocesana foi moldada pela pregação e pela ação, pelo suor e pelas lágrimas, não só dos seus bispos mas também dos padres, dos religiosos e religiosas e leigos que, em cada tempo, os acompanharam. Somos herdeiros, queridos irmãos e irmãs, de uma história difícil, por vezes dramática. Convido-vos assim a glorificar a bondade e a misericórdia de Jesus Cristo Nosso Senhor, continuamente manifestadas e oferecidas aos fiéis nas comunidades celebrantes desta diocese. Foi nessa perspetiva que preparámos as celebrações do próximo ano de 2019-2020. Louvemos a fidelidade do Senhor para com esta Igreja diocesana e peçamos-Lhe também perdão pelos nossos pecados e pelos pecados daqueles que nos precederam.

 

Conhecer a sua história

 

  1. Festejar a existência da nossa diocese é celebrar a sua vida como Igreja de Cristo. De facto, é só a Ele, Ressuscitado e fonte de Vida, que sempre celebramos. Convido-vos a conhecê-l’O melhor nas suas obras de amor para connosco, a mastigara sua mensagem e a esperar o cumprimento das suas promessas, e a amá-l’O com aquele amor primeiro que todos devemos dar só a Deus. Conhecer o Senhor Jesus pelos testemunhos que d’Ele nos chegaram dos primeiros cristãos e que foram reunidos nos quatro Evangelhos e nos outros escritos do Novo Testamento leva-nos a compreender que Moisés e os Profetas e toda a Escritura, é d’Ele que falam. E esse conhecimento que d’Ele nos dão as Escrituras é precioso para nós, porque nos ajuda a ler e a compreender a linguagem das suas obras, transformando assim as histórias das nossas vidas em história de salvação.

Para que a história da nossa diocese seja assim interpretada, vivida e celebrada, precisamos de a conhecer. A propósito, quero anunciar-vos, caros irmãos e filhos, que em breve tereis nas mãos um resumo da História da nossa Diocese feito pelo Padre Luís Miguel Taborda Fernandes e pelo Cónego António Mendes Aparício, aos quais agradeço o esforço feito para tornar possível este desejo meu e de muitos de vós. Será, para muitos, uma surpresa grande conhecer algo acerca de Apríngio de Beja, bispo notável do tempo dos visigodos, cuja ciência e erudição foram elogiadas pelo seu contemporâneo Santo Isidoro de Sevilha, de D. Frei Manuel do Cenáculo e de D. António Xavier de Sousa Monteiro, para não falarmos dos grandes bispos do século XX, mais conhecidos de todos. Quantas vicissitudes, projetos e trabalhos empreendidos, quantas perseguições e difamações suportadas, quantos combates travados dentro e fora da diocese, a todos os níveis, para lhe criar condições de sobrevivência e para nela fazer crescer a vida cristã!

Sim, nós reconhecemos que a existência da diocese de Beja, das nossas comunidades paroquiais e de cada um de nós, é querida pelo Senhor, que muito nos ama. Por isso, basta-nos o facto de estarmos vivos para nos levar a festejar, agradecidos, esta data.

 

Celebrar a Eucaristia

 

  1. Festejar a Cristo Nosso Salvador é, antes de mais, celebrarmos, na Eucaristia, a sua passagem da morte para a Vida, é cantarmos a sua vitória sobre a nossa morte. Celebrando a Eucaristia, memorial da Páscoa, recebemos o seu Espírito Santo «que dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus» (Rm 8, 16s), e que vem unir-se ao nosso espírito para nos ensinar a orar. A Eucaristia foi prefigurada naquela festa celebrada no deserto pelo povo de Israel, saído do Egito (cf. Ex 5, 1-3). É a celebração própria daqueles que já saíram do Egito e vão caminhando para a Terra Prometida. Sempre que celebra a Eucaristia, a Igreja proclama e celebra a sua identidade e a sua missão. Recordar o seu passado é necessário para viver bem o presente, orientado para o seu futuro. Iluminado por Cristo, o povo cristão toma consciência das suas origens, da sua situação presente e do futuro que lhe está prometido, quando diz: «Anunciamos Senhor a vossa Morte, proclamamos a vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus»!

De facto, as origens da nossa vida cristã estão no Batismo pelo qual morremos e fomos sepultados com Cristo e com Ele ressuscitámos para vivermos, segundo o Espírito, a vida nova dos filhos de Deus. E no deserto da vida presente onde as serpentes do mal continuam a morder-nos, somos alimentados pela Palavra e fortalecidos e curados pelos Sacramentos, sobretudo pelo Santíssimo Sacramento da Eucaristia celebrado ao Domingo, onde o próprio Senhor Jesus nos alimenta com a sua Palavra e com o seu Corpo e Sangue. E esta celebração abre-nos à esperança, alicerçada nas promessas de Cristo e expressa nas palavras: vinde, Senhor Jesus!

Caros irmãos e irmãs: neste ano vamos fazer memória do passado desta diocese, assim como foi vivido, com os seus momentos de glória e também com as suas debilidades e fracassos. Anunciaremos a Morte do Senhor, como o lugar onde nasce a vida da Igreja e como o momento no qual Cristo Senhor, Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, penetrou nos Céus, na presença do Eterno Pai, com o seu Sangue derramado por todos nós, alcançando-nos o perdão dos pecados e uma Redenção eterna.

Será um ano também para proclamarmos a sua Ressurreição pela qual a sua vitória sobre a nossa morte nos permitirá amar os nossos inimigos e perdoar-lhes, não sete vezes, mas setenta vezes sete, ou seja, sempre. Isso, de facto, podemos fazê-lo, porque, libertos do medo de morrer, podemos dar por eles a nossa vida.

Será também, sem sombra de dúvida, um tempo novo, projetado para a esperança da vinda de Cristo Senhor. Esta diocese de Beja é hoje um grande terreno que precisa de ser lavrado e semeado para produzir uma seara nova. Estas festas dos 250 anos da restauração da diocese deverão marcar o início desse tempo novo.

 

Com o coração em festa

 

  1. As festas pedem festeiros a condizer. Uma festa grande como esta, que esperamos seja toda repassada pelo dinamismo da Páscoa de Jesus, tem poder para nos purificar e preparar para participarmos na festa eterna do Reino dos Céus. «Justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor» (Rm 5, 1). Ter o coração em festa é tê-lo limpo do pecado e alegre por conhecer e pôr em prática a Lei de Jesus Cristo. É tê-lo deslumbrado pelo amor de Deus para connosco e disponível para O amar acima de tudo. Sem esse deslumbramento que é a fé, que festa poderá alguém fazer? E a fé abre o nosso coração à esperança, pois o Senhor prometeu-nos o Céu, a vida eterna. A porta que nos introduzirá na realização das promessas de Cristo é a nossa morte, a nossa passagem deste mundo para o Pai. Assim, caras irmãs e estimados irmãos, estas festas, para nos darem aquilo que esperamos delas, devemos encará-las como um intenso convite que o Senhor Jesus nos faz à conversão, à fidelidade, e ao amor a Ele e aos irmãos, ou seja, a vivermos uma vida teologal que tem nele a sua origem, o seu acontecer e o seu objetivo. As festas que nós cristãos realizamos na terra são sempre como que uma antecipação da chegada ao Céu e uma preparação para ela. O perdão dos pecados recebemo-lo no Sacramento da Penitência, que nos dá o Espírito Santo e nos prepara para a Sagrada Comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor na festa da Eucaristia.

Participar da Eucaristia Dominical, escutar aí a Palavra do Senhor que nos converte e sentarmo-nos à sua mesa, é vivermos a nossa vida como uma festa continuada, como preparação para a festa do Céu. Somos cristãos, somos filhos adotivos de Deus. Vamos, neste ano, praticar mais a oração individual e familiar para que, recebendo o Espírito Santo, aprendamos a viver na docilidade às suas inspirações. As catequeses para adultos, inspiradas no Catecismo da Igreja Católica, serão, para muitos, uma boa introdução à oração.

 

Programa das celebrações

 

  1. Como é previsível, as celebrações programadas por nós para este ano têm uma acentuação marcadamente litúrgica. São as celebrações eucarísticas realizadas nas diversas comunidades, com especial destaque para as que realizaremos na Sé de Beja, presididas pelo bispo diocesano. Realizar-se-á também na Pousada de S. Francisco em Beja, nos meses de março e de abril, uma Exposição sobre a História da Diocese. Todos os arciprestados estão convidados a visitá-la, pelo menos no dia da sua peregrinação à Sé. Nos meses de maio e de junho será a peregrinação de uma imagem de Nª Sª de Fátima e de um ícone de São José, padroeiro da nossa diocese, pelos arciprestados. Haverá diversos concertos e também algumas conferências. Apresentamo-vos, de seguida, o programa, tal como foi preparado por uma equipa.

 

2019
10/07 16h00 Reunião do Presbitério Diocesano para apresentação das Comemorações
18h00 Celebração da Eucaristia
20h00 Jantar no Seminário
01/12   Abertura Solene do Ano Jubilar. Eucaristia na Sé, com o presbitério
 

2020

15/02   Concerto: Missa a três vozes de D. António Xavier de Sousa Monteiro (séc.  XIX), pelo Coro do Carmo
01/03 16h00 Abertura da Exposição na Pousada de S. Francisco
06-07/03   II Simpósio Diocesano promovido pelo SDEC: A audácia de evangelizar
08/03   Peregrinação do Arciprestado de Moura à Sé; visita à exposição
14/03 21h00 Conferência na Pousada de S. Francisco: Presença do Cristianismo ao tempo do domínio islâmico, na diocese de Beja – Eng. Cláudio Torres
15/03   Peregrinação do Arciprestado de Beja à Sé; visita à exposição
21/03   Peregrinação do Arciprestado de Almodôvar à Sé; visita à exposição
28/03 21h00 Conferência na Pousada de S. Francisco: Os bispos de Beja no séc. XIX – Dr. Paulo Alves
04/04   Dia Diocesano da Juventude; Peregrinação dos Jovens à Sé e visita à exposição
08/04   Missa Crismal. Visita do clero à exposição

 

18/04   Peregrinação do Arciprestado de Santiago do Cacém à Sé; visita à exposição
21h00 Conferência na Pousada de S. Francisco: Como olhar hoje e que lição tirar dos fatores e circunstâncias culturais, sociais, políticas e religiosas explicativas da descristianização do Alentejo no passado? – D. Francisco Senra Coelho, Arcebispo de Évora
19/04   Peregrinação do Arciprestado de Cuba à Sé; visita à exposição
26/04   Peregrinação do Arciprestado de Odemira à Sé; visita à exposição
01/05   Solenidade de S. José Operário, padroeiro da diocese de Beja
01-10/05   Arciprestado de Beja recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
09/05   Encerramento da Exposição. Concerto com Rão Kyao e Coro do Carmo
10-20/05   Arciprestado de Cuba recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
20-31/05   Arciprestado de Moura recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
01-10/06   Arciprestado de Almodôvar recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
10-20/06   Arciprestado de Odemira recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
19/06   Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, titular da Catedral
20-30/06   Arciprestado de Santiago do Cacém recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José
09-11/07   Tríduo preparatório
12/07 17h30 Comemoração festiva dos 250 anos da restauração da diocese
24/10   Solenidade de S. Sisenando, padroeiro da cidade de Beja
22/11   Solenidade de Cristo-Rei.

Encerramento do Ano Jubilar

 

Como uma árvore…

 

  1. É desejável e normal que este programa, centrado naturalmente em Beja, seja completado por atividades a realizar por toda a diocese.

Queridos irmãos, convido-vos a realizar estas festas dos 250 anos da restauração da diocese de Beja, para usar uma comparação, como uma árvore, com folhas e flores, das quais se esperam frutos abundantes, mas sem esquecer as suas raízes e o seu tronco. As raízes, que a prendem ao chão e a alimentam, são a féque não se vê mas que dá vigor e solidez à árvore toda. O tronco, com os seus ramos, que a ergue para o Céu, é a imagem da Liturgia e da Festa que torna a Igreja visível no meio do mundo. Por eles, pelo tronco e pelos ramos, passa a seiva que alimentará as folhas, as flores e os frutos. Não nos contentemos com as palavras e os discursos, que também são necessários para nos unir, mas cultivemos sobretudo a nossa fé cristã, sem a qual a árvore não pode crescer nem frutificar.

Louvai o Senhor porque é bom cantar, é agradável e justo celebrar o seu louvor (Sl 147A, 1). Cheios da alegria que nos vem do amor do Senhor, celebremos, irmãos, os 250 anos da nossa diocese restaurada.

O Senhor vos abençoe a todos generosamente.

 

Beja, 10 de julho de 2019

 + João Marcos, bispo de Beja

Há Vida, Há Festa – Carta do Bispo de Beja à Diocese- 2019

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