A sede de Deus – por ocasião da festa de Todos os Santos e dos fiéis defuntos

Deus tem sede de comunhão de santos, tem sede da sua Igreja em caminho para o Reino definitivo:

«Sede santos, porque eu sou santo», diz Deus ao povo eleito (Lv 11,44) e relembra S. Pedro aos cristãos (1 Pe 1,15).

Quem é santo? Aquele que é perfeito?

Não. Santo é aquele que exclusivamente pertence a Deus. E, quem pertence a Deus não reivindica o direito de se pertencer a si próprio; não tem sede de si; tem sede de amar o Absoluto e de lhe ser fiel. Ama o Outro e os outros: ama Deus que não vê, e ama os outros que vê. Contempla, no Deus invisível, o amor concretizado no rosto de Cristo, para viver o amor visível e pessoal pelos outros, e entrega-se por eles. Viver uns pelos outros, e não apenas uns com os outros, é ser Igreja Corpo de Cristo, na terra e no céu. É a realidade da comunhão dos santos, comunhão que a morte física não consegue extinguir.

É em Deus – comunhão de amor Trinitário – que a comunhão é possível entre os homens que creem no amor pelos justos e pelos menos justos, que carecem ainda de serem purificados; e é desejada pelos injustos, que precisão de pedir e obter perdão e misericórdia.

  1. O amor pelos justos – os santos

A Igreja canoniza santos. Anuncia os seus nomes e celebra o seu culto, exaltando a sua vida de entrega, apontando-os como exemplos e intercessores para toda a humanidade. Declara que pertencem reconhecidamente à catolicidade da Igreja, ou seja, à universalidade do amor salvífico. Desde o início do cristianismo que os mártires – confessores da fé até ao derramamento de sangue ou sem ele – são apresentados como estímulo à fidelidade e à esperança, que é a grande força da fé e da caridade.

Mas, quantos santos estarão já a ver a Deus e em adoração e intercessão por nós, construtores da história e peregrinos da fé? Quantos não estarão desejosos da purificação dos menos justos? São os santos nossos desconhecidos.

São esses que a Igreja celebra na Festa de Todos os Santos. Não lhes sabemos os nomes e o seu percurso histórico. (Alguns até talvez tivéssemos conhecido!). Partiram para a pátria eterna silenciosamente, para comungarem no eterno amor, sempre difusivo. Eles oram a Deus pelos vivos e pelos defuntos a serem purificados, porque amaram a Deus, mas será que já poderão contemplar o rosto divino?

Se, para os primeiros, Deus é o céu, para estes é a purificação. E todos somos convidados a orar por eles, para a Glória de Deus e a beatitude deles.

  1. O amor pelos fiéis defuntos

É Deus e é em Deus que a igreja ora pelos fiéis defuntos que ainda são purificados.

Repugna hoje a alguns pregadores e a alguns teólogos dos anos 60 do passado século falarem de Purgatório .Compreende-se, pois muitos nem perceberam a influência que receberam, nesses anos, da Reforma protestante, que o nega, ainda que sem fundamentos, esses fáceis de encontrar na Tradição Patrística e mesmo na Escriturística; outros, com mais razão, temem que se permaneça em lugares de purificação, de influência Apócrifa.

Negar que a Igreja deve, unida ao seu Senhor, orar por eles, é não reconhecer como o amor divino deseja a comunhão perfeita – «sede santos», e não desiste da purificação dos que dela necessitam.

A comunhão eclesial exige a comunhão de todos: os que já veem a Deus e os que, crentes e perdoados dos seus pecados, esperam e agradecem a acção misericordiosa da Assembleia Santa.

Como lembra, em alguns dos seus escritos, o Cardeal nomeado Hans Urs von Balthasar: Deus é o céu para quem O ama, a purificação para quem por Ele se deixa purificar, e o inferno para quem O nega.

A celebração do dia 2 de Novembro visa, pois, os que se deixam purificar.

As duas celebrações (dias 1 e 2) estão, assim, profundamente unidas.

Maria Manuela da Conceição Dias de Carvalho

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