Homilia do Bispo de Beja, na Celebração da Paixão do Senhor, na Catedral

Homilia de 6a feira Santa na Celebração da Paixão do Senhor Catedral de Beja – 10 de Abril de 2020

Reverendos Cónegos e Presbíteros, estimados Diáconos, Religiosos e Religiosas, amados fiéis leigos e leigas, todos vós que estais connosco, permanecendo em vossas casas:

1 – Comemoramos hoje, com toda a Igreja, a Paixão e a Morte do Senhor na Cruz, por nosso amor. Olho para os bancos da assembleia nesta igreja catedral de Beja. Estão vazios. Lembro-me de os ver, nos anos anteriores, com muitas e muitos de vós, trajando cores escuras ou de gravata preta. Neste ano estão vazios, pelo medo do contágio do vírus Covid-19. Em última análise, pelo medo de morrer.

Lemos na Carta aos Hebreus que Cristo veio ao mundo e fez-Se homem, assumindo para si a nossa carne e o nosso sangue, para destruir, na Sua morte, o senhor da morte, isto é, o diabo, e para libertar aqueles que passavam uma vida inteira escravos do medo de morrer ( Hb 2, 14).

Escravos do medo de morrer? Alguém pode reagir a esta expressão dizendo que não tem medo de morrer. E pode começar a dizer que a morte é algo tão natural como o nascimento, pois tudo aquilo que nasce, morre. Mas então, se a morte é algo natural, porque será que tantas pessoas a não encaram naturalmente?

Quando, aqui na igreja, falamos de morte, queridos irmãos e irmãs, não falamos sobretudo da morte física, mas da morte que consiste na destruição do nosso eu, nessa morte que é fruto do pecado. A morte física tornou-se odiosa para nós porque se tornou símbolo dessa morte espiritual, da qual o Senhor Jesus nos veio libertar com a Sua morte na Cruz e com a Sua Ressurreição.

2 – Como encaras a tua morte, caro irmão? Apenas como o fim da tua vida terrena, como o teu desaparecimento da terra dos vivos?

Vejamos como o Senhor Jesus encarou a Sua morte, Ele que viveu, não para si mesmo, mas para aqueles a quem foi enviado pelo Pai. A primeira evidência, é que Ele, mesmo no abandono extremo que sentiu ao mergulhar na morte, sabe, pela fé, que a Sua morte é uma passagem deste mundo para o Pai que O ama e em cujas mãos entrega a Sua vida. E mesmo que Se sinta rejeitado, sabe que morre amando este mundo carregando com os seus crimes e libertando-O do pecado e da morte.

Na Paixão segundo S. João hoje proclamada, víamos Jesus Cristo morrer como Rei entronizado no trono da Cruz, e como Esposo que bebeu o vinagre, quer dizer, que assumiu para si os pecados da sua Esposa e Lhe deu o vinho novo do Seu Espírito. Na primeira leitura desta nossa celebração,

escutámos o IV Canto do Servo que descreve cruamente os sofrimentos suportados pelo Senhor Jesus. E disse-nos que Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre Ele o castigo que nos salva. Pelas Suas chagas fomos curados (Is 53,5). Aqui é-nos apresentado como médico e como remédio que nos cura do pecado.

Para Jesus, a Sua morte não era encarada como algo que o atingia apenas a Ele: para Ele, morrer era fazer a passagem, a Páscoa definitiva da Nova Aliança era abrir, para toda a humanidade, as portas do céu. Era, assim, regressar ao Pai que O enviara ao mundo. Era regressar ao Seio daquele amor que, desde sempre, O gerou. Mas era também obedecer à vontade do Pai Criador que pelo Sangue derramado de Seu Filho, resgatou para a comunhão divina uma grande multidão de filhos adotivos. Era partir para dar lugar no mundo, ao Seu Espírito Santo, a alma da Igreja, que viria para nos guiar até à Verdade plena. Era experimentar, mergulhando no sofrimento indizível da morte na Cruz, o amor do Pai que O enviara ao mundo e que agora O mandava regressar a Si como o Sumo- Sacerdote no dia da Expiação, não com o sangue de touros ou de cabritos, mas com o Seu próprio Sangue, reconduzindo assim ao Pai as nossas vidas resgatadas. Plenamente livre, não sendo escravo de ninguém, revestido de toda a autoridade, a Sua morte tem esta dimensão sacerdotal. Como lemos na Carta aos Hebreus, “Santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, elevado mais alto que os céus”, (Hb 7, 26) Jesus Cristo, morrendo na Cruz, regressou ao Pai para ser por Ele glorificado e para, sentado à Sua direita, exercer o Seu Sacerdócio em nosso favor. Assim continua a amar-nos eternamente, a todos nós que, na terra, Ele amou até ao fim. Ele é o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança que realizou na Sua Morte, de uma vez para sempre, a expiação dos pecados do mundo.

3 – Assim, quem acredita em Jesus Cristo e está batizado em Seu nome, dá morte e sepultura ao seu homem velho e ressuscita com Ele para a Vida escondida em Deus, vida que é própria do Filho. A morte surge então para nós como a outra face desta moeda que é a vida. E a vida do cristão outra coisa não pode ser, senão isto: levarmos sempre, no nosso Corpo, o morrer de Jesus, para que a Sua Vida de ressuscitado se manifeste em nós(2Cor 4,11). Habituados assim a viver cada dia morrendo para o pecado, a nossa morte deixa de estar resumida na morte física que esperamos no futuro; vivemo-la no presente e vai-se tornando, em grande parte, experiência do passado. Quem deixou de viver para si mesmo e se fez doador de vida aos outros, encontrará certamente na morte, o grande momento da sua Páscoa.

Para nós cristãos, como para todos os outros homens e mulheres, a morte continua a ser aquele buraco negro onde tudo desaparece. Mas nós chamamos-lhe óbito, quer dizer, encontro com Cristo Ressuscitado, cuja glória resplandece aí, no centro desse vazio, para nos assumir (e, daí, a palavra Assunção) e nos levar com Ele para o Pai. Por isso, desde o começo da História da Igreja, celebramos o dia da morte dos mártires como sendo o dia do Seu nascimento para a vida verdadeira, para a Vida Eterna.

4 – A Igreja manda-nos, neste dia de Sexta-feira Santa, contemplar a imagem de Cristo crucificado, que é a imagem mais importante e indispensável para crescermos na vida cristã, nesta vida de configuração com Jesus Cristo, Nosso Senhor. Esta imagem que sempre deve estar presente na celebrações da Igreja, nomeadamente na Eucaristia, sempre deve acompanhar aqueles que foram marcados com ela e a receberam da Igreja como o primeiro tesouro, no dia em que pediram o Batismo.

Nas vossas casas, queridos irmãos, o crucifixo deve ocupar, na sala e nos quartos, um lugar de honra. Ele dá-nos a medida do amor do Senhor para connosco, a mesma medida que Ele espera de cada um de nós. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nosso amor, oferece-nos gratuitamente a Vida que a Lei prometia a quem a cumprisse. A Ele, que não veio abolir a Lei mas cumpri-la inteiramente, vemo-l’O crucificado, de mãos e pés cravados no madeiro, com a Sua cabeça coroada de espinhos e de coração trespassado, significando assim que Ele cumpriu plenamente a Lei amando o Pai com todo o Seu coração, com toda a Sua mente e com todas as Suas forças. Na imagem de Cristo crucificado se resume toda a Sagrada Escritura e todo o Evangelho. Ela mostra-nos que as consequências dos nossos pecados matam o Filho de Deus em nós. Mas ela revela-nos, sobretudo, a imensidão do Seu amor para connosco. Ele sofreu por mim e por ti, sofreu pelos nossos pecados, deu a Sua vida por amor de nós.

Contemplar a Cruz do Senhor leva-nos a adorá-l’O a Ele, que sendo verdadeiro Deus Se fez homem verdadeiro para nos salvar. Se somos sensíveis ao Seu amor para connosco, como não O adoraremos, não apenas em Sexta-feira Santa, mas todos os dias da nossa vida?

Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo! Esta expressão de S. Paulo ilumine o nosso coração neste dia em que, muito concretamente, nos centramos no mistério da Cruz.

5 – A Cruz de Jesus, esse madeiro onde esteve suspenso e foi torturado o corpo de Cristo, tornou- se para nós o Sinal, por excelência, das bênçãos de Deus. Como o próprio Senhor Jesus ensinou, quem quiser ser Seu discípulo precisa de renunciar a si mesmo, de aceitar a sua cruz todos os dias e de O seguir. No evangelho da Paixão segundo S. João que escutámos, víamos, ao pé da cruz, Sua mãe e o discípulo amado, juntamente com outras poucas pessoas que acompanharam o Senhor Jesus até ao Calvário.

Queridos irmãos e irmãs: se quereis ser discípulos adultos de Cristo Jesus não fujais da vossa cruz mas abraçai-a e carregai com ela em cada dia! Qual é hoje a tua cruz! A solidão, uma doença, o temperamento de alguns familiares mais próximos, o facto de estares desempregado e não teres dinheiro para viveres dignamente? Por estranho que pareça, ela é o jugo suave que o Senhor oferece aos Seus amigos e discípulos. Aceita a tua cruz de olhos postos no Senhor, que a carrega contigo, no outro lado do jugo.

A sabedoria da Cruz é a sabedoria dos cristãos. É ela que nos permite escutar as palavras de Cristo, sobretudo aquele tenho sede e receber por Mãe a Virgem Maria, é ela que nos permite estarmos com Deus e encontrarmos n’Ele a força e a consolação de que precisamos para viver. A nossa cruz, unida à Cruz do Senhor e por ela iluminada, é o caminho mais rápido, aliás, é o único caminho que nos conduz à Pátria Celeste.

Se somos e queremos continuar a ser cristãos, se sois e quereis continuar a ser cristãos, irmãos e irmãs, amai a Cruz, aceitai a Cruz que o Senhor providenciou para vós e colocai o crucifixo nos espaços onde decorrem as vossas vidas. Não vos envergonheis das vossas cruzes, não vos envergonheis de ser cristãos. Lembrai-vos, nos momentos de crise e de tentação, que todo o auxílio e toda a força de que precisamos, toda a nossa glória, estão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

+ J. Marcos

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