Homilia na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, Titular da Catedral

Homilia – Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Titular da Catedral

Sé de Beja, 19/06/2020

 

– Reverendos padres e diáconos a quem saúdo cordialmente neste dia mundial de oração pela nossa santificação;

– caros seminaristas, a caminho de sedes ministros do sacerdócio do Senhor em favor dos vossos irmãos, de modo especial tu, Nuno Oliveira, que nesta celebração vais ser instituído leitor;

– queridos religiosos e religiosas, e todos vós, amados fiéis leigos e leigas:

 

1 – Celebrando hoje o Titular da nossa Catedral, a Igreja convida-nos, mais uma vez, a olhar, a mergulhar e a permanecer neste abismo de amor que há dois mil anos nos foi dado por Deus Pai no Coração trespassado de Seu Filho morto na Cruz! Hão-de olhar para Aquele que trespassaram! Contemplemos, caríssimos irmãos, Jesus Cristo Nosso Senhor morto na Cruz e trespassado pelos nossos pecados. Vejamo-l’O com os olhos da fé. Escutemo-l’O com o nosso ouvido espiritual, interior, e deixemos que surjam no silêncio dos nossos corações, estas palavras sublimes: Deus é amor! 

Deus é amor! Escutávamos na segunda leitura, tirada da 1ª Epístola de S. João, esta frase tão pequena e tão imensa, pois nela se resume a mensagem toda do Novo Testamento e de toda a Sagrada Escritura e mesmo da Criação inteira. Deus é amor!

Que nos veio revelar Jesus, o Filho de Deus, senão que Deus é amor? E a Sagrada Escritura, a Lei e os profetas, em última análise, que nos ensinam? Deus é amor! E os acontecimentos das nossas vidas e a Natureza, o sol e a chuva, tudo aquilo que Deus criou proclama esta verdade fundamental para a nossa vida que é o amor do Senhor para connosco, homens e mulheres pecadores, impossibilitados tantas vezes de O reconhecermos e de Lhe correspondermos.

Deus é amor! São belas estas palavras! Mas como se experimentam, no concreto da nossa vida, a sua força transformadora e a sua verdade? O texto da Epístola continua dizendo-nos que o amor de Deus para connosco se manifestou assim: Deus enviou ao mundo o Seu Filho Unigénito para que vivamos por Ele. E, mais adiante, acrescenta: nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o Seu Filho como Salvador do mundo. É verdade que a fé cristã nasce de ouvirmos a pregação, surge e alimenta-se ao escutarmos o anúncio da morte e da ressurreição do Senhor. Quem dá crédito a esse anúncio e o deixa crescer na sua vida, experimenta a sua verdade, ou seja, vê Cristo vivo na Igreja, nos irmãos, e sente o desejo de O anunciar para que outros possam também reconhecê-l’O como o seu Salvador. Nós vimos. Não escutámos apenas, mas, tal como os pastores de Belém, como nos contaram, assim O vimos e anunciamos.

Queridos irmãos e irmãs: Como vedes e anunciais vós a Boa-Nova de Cristo Jesus? Experimentais que a realidade da Sua ressurreição está crescendo em vossas vidas, de modo que deixais de viver para vós mesmos? O anúncio que fazemos do Senhor não pode ser um falso testemunho. Só se for um testemunho verdadeiro pode converter aqueles a quem é dirigido.

 

2 – Da primeira leitura, tirada do livro do Deuteronómio, ouvimos estas palavras dirigidas por Moisés ao povo eleito:

Tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus; foi a ti que o Senhor teu Deus escolheu, para seres o Seu povo, entre os povos que estão sobre a face da terra. E acrescenta: Se o Senhor Se prendeu a vós e vos escolheu, não foi por serdes o mais numeroso de todos os povos, uma vez que sois o menor de todos eles. Mas foi porque o Senhor vos ama.

O mistério da eleição que o Senhor fez do povo de Israel, e também de nós cristãos para sermos seus filhos adotivos, é expressão deste amor gratuito que Ele nos dedica, amor traduzido numa aliança de amor. Como precisamos de recuperar, caros irmãos, a consciência de sermos escolhidos pelo Senhor para nos tornarmos seus aliados e presença do Seu amor entre as nações, às quais oferece a Salvação no Seu Filho bem-amado! A força da nossa relação com o Senhor está, antes de mais, no facto de sermos escolhidos por Ele, não por mérito próprio, mas gratuitamente! Porque foi que o Senhor me escolheu a mim, pobre pecador, para estar como bispo nesta diocese? E porque escolheu os presbíteros e os diáconos, estes e não outros, para comigo vos servirem, porque te escolhe a ti, Nuno Oliveira, para O servires com tudo aquilo que és e que possuis? Longe de mim, longe de nós pensarmos que foi graças às nossas capacidades e talentos, às nossas virtudes e méritos. O Senhor escolhe aqueles que quer, porque os ama. E é por isso que somos, de facto, verdadeiros servos inúteis: é, antes de mais, porque nos ama e menos pela utilidade, que o Senhor nos chama ao Seu serviço. Quem se reconhece amado assim, e aprende a corresponder a esse amor e a permanecer n’Ele obedecendo aos Seus mandamentos e servindo-O nos irmãos, vê a sua vida transformada num canto de louvor e ação de graças ao Senhor, numa vida eucarística.

Tu és um povo consagrado ao Senhor que te escolheu. És um povo, somos um povo, mais do que uma soma de indivíduos. A vida cristã não pode ser vivida apenas individualmente. A força do testemunho da vida cristã, testemunho da vitória de Cristo sobre a nossa morte vem desta maravilha que nos faz ver nos outros, não o inferno, mas irmãos que acolhemos e amamos, também quando são nossos inimigos e nos fazem sofrer, com os mesmos sentimentos de Jesus, com o mesmo amor que d’Ele recebemos. Esse é o testemunho que nos chega, como é sabido, da primeira comunidade de Jerusalém, nascida da pregação dos apóstolos. Por isso também o Senhor Jesus Cristo, ao enviar os discípulos a pregar, mandou que fossem dois a dois. Como S. Gregório Magno resumiu magistralmente, há uma norma para aquele que prega: que pratique aquilo que anuncia. Nesse sentido, quero expressar mais uma vez o meu apreço por aqueles padres religiosos ou diocesanos que vivem e trabalham juntos, pois no meio deles se manifesta ao povo, mais claramente, o Senhor ressuscitado.

3 – A santidade pela qual hoje rezamos, caros irmãos, não se pode reduzir a um perfeccionismo individual. Essa confusão criada pelo demónio, é a causa dos escândalos e mexericos, das más-línguas e desavenças que são a negação da comunhão. O Senhor manda que sejamos santos, não que sejamos impecáveis. Sabeis qual é a diferença que existe entre um santo e um que o não é? Ambos pecam sete vezes ao dia. Aquele que é santo, sete vezes se levanta, apoiando-se no Senhor, enquanto o outro fica tombado no chão. Aquele que é santo sabe que Deus o criou para andar vertical, e sente-se mal quando cai. O outro vive caído no chão, acha que assim está bem, e para se justificar a si mesmo condena os outros.

O evangelho que escutámos há momentos, queridos irmãos, mostra-nos que o caminho para sermos santos não pode ser outro diferente daquele que nos mostra o Senhor: sermos humildes, tornarmo-nos pequeninos para recebermos do Pai a revelação do mistério da Sua comunhão admirável com o Filho, a quem tudo oferece. Tornarmo-nos pequeninos para acolhermos o convite do Filho para aprendermos d’Ele a sermos mansos e humildes de coração e experimentarmos, pelo Espírito Santo em nós, a suavidade do Seu jugo. Ser cristão, ser religioso, ser diácono ou padre é sermos presença de Cristo ressuscitado, manso e humilde de coração, neste mundo em que vivemos.

Em Cristo, unidos a Ele, tornamo-nos semelhantes a Ele. Tornamo-nos filhos adotivos de Deus, vivendo a partir do Pai e para o Pai, no mesmo Espírito. Escutamos e alimentamo-nos da Sua Palavra e comungamos do Seu Corpo e Sangue para que Ele viva em nós e nós n’Ele, e as Suas obras se manifestem em nossas vidas. E tornamo-nos sacerdotes participantes do Seu Sacerdócio, escutando o Pai para fazermos em tudo a Sua vontade e ajudarmos os cristãos, pelas nossas palavras e exemplo, a louvarem connosco a Deus, e a oferecerem-se a si mesmos ao Pai, unidos a Cristo Nosso Senhor e a buscar em tudo a Sua glória. Ser um padre santo resume-se a isto: anunciar o Evangelho, celebrar a Liturgia, de modo especial a Santa Eucaristia, e praticando a caridade fraterna, edificar a comunhão eclesial.

Caríssimo clero diocesano: Para nos ajudar nesta missão, o Santo Padre, o Papa Francisco, na carta que escreveu ao clero da cidade de Roma e que remeti para vós, convida-nos a assumir a responsabilidade própria do nosso ministério, com estas palavras:

Como sacerdotes, filhos e membros de um povo sacerdotal, temos o dever de assumir a responsabilidade pelo futuro e de o projetar como irmãos. Coloquemos nas mãos feridas do Senhor, como oferta sagrada, a nossa fragilidade, a fragilidade de nosso povo, bem como a de toda a humanidade. O Senhor é Aquele que nos transforma, que se serve de nós como do pão, toma a nossa vida nas suas mãos, nos abençoa, nos parte e nos reparte e nos dá ao seu povo.

Sejam estas palavras luminosas, caros irmãos e irmãs, a luz que nos conduzirá a uma vida mais cristã e a um exercício mais santo e mais fecundo do sacerdócio.

 

+ J. Marcos, bispo de Beja

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