Homilia do 1º Domingo da Quaresma

Sé de Beja, 21/02/21

 

Queridos irmãos e irmãs:

1 – Hoje, o Senhor chama-nos a entrar, de facto, na Quaresma.

Viver a Quaresma é entrarmos, conduzidos pelo Espírito, no deserto da nossa vida, é descermos às águas do Batismo. Esta descida à nossa realidade concreta é possível graças à Aliança que o Senhor Jesus fez connosco no Sacramento do Batismo. À semelhança do povo de Israel que, durante quarenta anos, caminhou no deserto até entrar na Terra Prometida, também a nós, em cada ano, o Senhor nos concede viver estes quarenta dias no deserto da Quaresma. Eles são imagem da vida presente, enquanto os cinquenta dias do Tempo Pascal são imagem da Vida futura. Na Quaresma, semeamos. Na Páscoa e no resto do ano colheremos os frutos.

Quarenta dias no deserto. Que significa esta expressão? Que quer dizer o número quarenta? E que significa o deserto para nós cristãos? O número quarenta significa uma vida completa, a vida inteira. O deserto é o lugar onde todos somos iguais na pobreza de meios para subsistir; é por isso, o lugar da tentação, a habitação dos demónios. Assim foi para o povo de Israel, assim foi para Jesus e assim é também para todos nós. Mas é também o lugar onde Deus conduz o seu povo da escravidão do Egito para a liberdade, o lugar aonde o chama para lhe falar ao coração, como lemos no livro do profeta Oseias.

2 – Caríssimos irmãos: decidamo-nos a entrar no deserto da Quaresma. Para alguns, será esta a última Quaresma das suas vidas. Não tenhamos medo desse lugar onde nos espera a tentação mas onde podemos encontrar Cristo nosso Senhor que nos ensina a combater e nos oferece a sua vitória. Reparemos nas palavras do Evangelho de São Marcos que ouvimos há momentos: depois de ter sido batizado, Jesus, o Filho de Deus, é impelido pelo Espírito Santo para o deserto.

Todos nós, batizados, que trazemos no coração o mesmo testemunho dado pelo Pai acerca do Seu Filho, levamos também, no nosso espírito, o testemunho do Espírito Santo que nos diz que somos filhos adotivos de Deus. Afirma São Paulo, no capítulo oitavo da Carta aos Romanos, que são filhos de Deus aqueles que se deixam guiar pelo Espírito de Deus. O Espírito Santo é o Mestre da vida interior. Graças a Ele, e à sua ação em nós, podemos, tal como Jesus e em Jesus, revestidos da Sua santidade, viver em paz com os animais selvagens.

Que são os animais selvagens, com que convivemos no deserto da nossa vida? Podemos entendê-los como aqueles que não se sujeitaram ao jugo de Cristo, e para quem os nossos comportamentos de obediência ao Evangelho são incompreensíveis. E, por isso, nos criticam e nos perseguem, como seria de esperar. Mas podemos ver representados também nestes animais selvagens, a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja, a preguiça, ou seja,  os demónios que tentam afastar-nos de Deus.

Cristo nosso Senhor, o novo Adão, viveu com os animais selvagens, tal como o primeiro Adão. Na nova criação cumpre-se a palavra do profeta Isaías: o lobo morará com o cordeiro, o leopardo se deitará com o cabrito, o bezerro e o leãozinho andarão juntos, a vaca e a ursa pastarão juntas (Is 11 6, 7). A harmonização simbolizada na convivência pacífica destes animais significa a paz profunda e duradoira que habita o coração daquele que se alimenta com a Palavra e com os Sacramentos que, na Igreja, nos são servidos.

Neste deserto, diz ainda o Evangelho de São Marcos, tal como Jesus também nós somos servidos pelos anjos. Grande mistério é este, caríssimos irmãos: somos servidos e alimentados pelos anjos! É um anjo que vos fala neste momento, alguém que vos foi enviado como bispo e que, como tal, recebestes em nome do Senhor.

3 – Como escutámos, esta experiência de deserto que Jesus fez, serviu de prólogo à Sua vida pública e à Sua pregação. As Suas primeiras palavras registadas no Evangelho de São Marcos, ouvimo-las hoje: cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

Ser cristão, caros irmãos e irmãs, é ser anunciador do Reino de Deus. Anunciar o Reino de Deus não se resume a ensinar um Catecismo. Trata-se de comunicar a própria vida de Jesus e de dar o seu Espírito, trata-se de mostrar presente em nossas vidas, as obras próprias de quem é habitado pelo Espírito Santo, de quem vive a sua condição de filho adotivo de Deus. De facto, apenas pode anunciar o Evangelho quem primeiro o aceitou e deixou crescer e experimentou na sua vida como a verdade que nos ilumina e plenifica. Se somos cristãos, somos necessariamente anunciadores do Evangelho.

Somos?! Falamos, por acaso, do Reino de Deus aos nossos familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho? Onde estão aqueles e aquelas que por nosso testemunho se tornaram filhos de Deus e, espiritualmente, filhos nossos? Se somos cristãos apenas para consumo próprio e para nossa própria consolação, se somos espiritualmente estéreis, precisamos de crescer, de nos tornar adultos na fé. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho! Convertamo-nos, irmãos e irmãs, a Cristo Nosso Senhor. Acreditemos no Evangelho, na Boa Notícia de que o Senhor nos ama e nos chama a possuir a Vida verdadeira, e nos concede a graça de nos amarmos com o mesmo amor, com o mesmo espírito, com os mesmos sentimentos de Jesus.

4 – Este é o apelo principal que o Evangelho hoje nos faz, caríssimos irmãos e irmãs. Este é o convite que esta Quaresma faz chegar até nós: vamos caminhar até à Páscoa, vamos reviver e renovar o nosso Batismo para crescermos como cristãos adultos na fé. Por meio de nós que estamos vivos neste tempo, o Senhor quer renovar a sua Igreja para oferecer ao mundo aquilo que a arca de Noé prefigurava no dilúvio.

 

Como escrevi na mensagem da Quaresma, eu vos convido a viver intensamente este tempo de graça que o Senhor nos oferece! Despertai, adormecidos! O Senhor está a passar por aqui e chama-vos, chama-te pelo teu nome! Quando for possível, irmãos e irmãs, quando terminar este confinamento, regressai com alegria às celebrações dominicais.

A vida cristã apenas funciona se nos convertemos seriamente ao Senhor Jesus Cristo. A santidade a que somos chamados, caros irmãos e irmãs, é a santidade de Cristo, a única santidade que consiste em vivermos n’Ele, Filho Único, como filhos adotivos.

Cultivai a vida familiar. Cada família cristã é uma igreja doméstica! Deixai de pecar e perdoai os pecados daqueles que vos ofenderam. Reconciliai-vos com o Senhor e com os vossos irmãos. Recebei, no Sacramento da Penitência, o perdão generoso do Senhor, e alegrai-vos com a Sua Graça regeneradora. Orai mais frequentemente, praticai o jejum e a abstinência de carne e cultivai a vida do espírito dando esmola generosamente. Não sejais indiferentes à situação angustiosa de tantas pessoas que estão passando necessidades, e contribuí também para as vossas comunidades paroquiais. Lembro, a propósito, que a Renúncia Quaresmal deste ano se destina a ajudar os pobres das paróquias da nossa diocese. Sede generosos! Sejamos generosos! A esmola apaga uma multidão de pecados.

Celebremos a Eucaristia levantando os nossos corações para o Senhor que nos convida a vivermos a partir d’Ele e para Ele na Aliança nova e eterna que realizou em nosso favor, pelo seu sangue derramado sobre a Cruz.

+ João Marcos, Bispo de Beja

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